O que você quer ser quando envelhecer?

O que você quer ser quando envelhecer?

Duas perguntas me chamaram a atenção numa campanha publicitária da Nestlé*, lançada em 2019. A primeira, – O que você quer ser quando crescer? – tenho certeza que quase todo mundo já ouviu. Ou, durante a infância. Ou, durante a adolescência.
A outra, no entanto, – O que você quer ser quando envelhecer? – alguém já lhe fez essa pergunta?

Ou se lembra de tê-la feita a si próprio?

Eu não me lembro. Nunca pensei a respeito. Aliás, não é uma pergunta tão comum como a primeira. Para crianças e adolescentes, perguntar sobre o que querem fazer da vida é natural. Tem um longo tempo pela frente e são incentivados a pensar sobre ele, a planejá-lo. Mas, quando você já viveu, realizou coisas, conquistou seus sonhos, e o tempo que resta já não é tanto, pensar sobre o futuro não é mais o foco.
A própria campanha da Nestlé é uma prova do que digo, quando apresenta as respostas dadas pelos dois grupos. A direção do comercial usou pessoas comuns, portanto os dados são válidos como exemplo. As pessoas mais velhas quando confrontadas têm uma atitude de hesitação, como se houvesse uma espécie de estranhamento. As respostas não saem com naturalidade. Sem contar, que pode não haver uma resposta. Mas, o outro grupo, o dos mais jovens, quando questionados sobre o que serão quando crescer, têm as repostas na ponta da língua.

Por que esta resposta é tão difícil?

Alguns argumentos já discuti nos textos anteriores deste blog. Penso que dois deles, para mim, são extremamente marcantes – o fato de que pensar no tempo que nos resta é pensar, inevitavelmente, na morte. Outro, é que não temos mais nada a fazer com o tempo que nos resta. Estamos aposentados. Os filhos cresceram. Já atingimos a maior parte de nossas metas. E o que não conquistamos, não pode ser mais conquistado. Fazer novos planos, nem pensar.
Argumentos fortes que me conduziram por certo tempo. Fui envelhecendo, sem grandes questionamentos. Apenas angústia, por estar vendo a vida passar. Como os personagens do comercial, não tinha a resposta para aquilo que, ainda, poderia viver.

Mas, se eu tivesse me perguntado?

Ou, alguém me tivesse feito tal pergunta?
Ah… Hoje, eu tenho várias convicções a respeito. Teria trilhado outro caminho. Poderia ter planejado melhor minha velhice. E me preparado para não me sentir tão angustiada, com este período da vida. Me livraria de pensamentos, culpas, sofrimentos. Valorizaria mais minhas conquistas. Avaliaria a retomada de velhos desejos. Olharia para as limitações trazidas pela idade, com um olhar que não me impedisse de viver e ser independente.  Renovaria as energias com novos projetos.
Cultivaria, ainda mais, alguns hábitos que adotei depois de me aposentar – teria mais encontros com as minhas irmãs e amigos; viajaria mais, tomaria mais cafés, iria mais ao cinema,… Mas, tudo devagar, sem pressa.
Esta é a minha resposta à pergunta – O que você quer ser e fazer quando envelhecer? Mas, outras são possíveis. Até, a alternativa de que ela não precisa ser feita.

Escolhas

Revisitando meu Blog, posso encontrar, nos comentários feitos sobre outros textos, interlocutores que questionariam minha forma de pensar.
Um interlocutor poderia se manifestar, com o seguinte argumento – “Eu não fiz a pergunta. Envelheci e continuo envelhecendo. Tudo muito natural, sem grandes angústias. As oportunidades surgem e as aproveito. Os problemas acontecem e eu os resolvo. E o que não posso resolver, deixo para lá.  Uso minha experiência e minha intuição para obter meus acertos  e evitar os erros. Algo simples, para mim, uma vez que envelhecer e morrer, são coisas que não posso controlar”.
Outro, diria: “A vida não tem  roteiro pré-estabelecido. As incertezas fazem parte dela. E por mais que planejemos, não há como controlar  os acontecimentos.  Quero viver minha velhice sem me preocupar. Viver um dia de cada vez”.
Um terceiro, talvez, fizesse um gesto de indignação, e sairia dizendo – “Nem me fale nisso. Só de pensar em ter 60, 70… me dá um arrepio…”

Bem… além dessas posições, podem existir outras. Tudo é uma questão de como queremos envelhecer. Afinal, como a própria campanha da Nestlé conclui – A vida é feita de escolhas.

Então, responder a pergunta – O que você quer ser quando envelhecer? é uma escolha  sua.

Observação

* A Nestlé Brasil Ltda lançou em 2019 uma campanha publicitária em que propunha uma reflexão sobre o conceito de longevidade, lançando a seguinte pergunta – O que você que ser quando envelhecer?

O site “ABC da Comunicação“ explica com detalhes o surgimento e o teor da campanha. Acesse o site e veja o vídeo.

4 comments

    1. Apesar de conhecer a propaganda, a pergunta só me chamou atenção quando buscava assunto para o blog. Ela me deu o mote, pois me possibilitava dar continuidade à reflexão iniciada e, ainda, acrescentar elementos novos. Tudo o que disse sobre o meu processo de envelhecimento – medos, inseguranças, meu espanto – ganhava, agora, um novo olhar. Este “O que você quer ser quando crescer”? que a Nestlé dirigiu a todos com mais de 50, agora, eu fazia a mim a mesma pergunta. E as indagações, respostas, que obtive, transformaram-se neste texto, que você acabou de tomar contato.

  1. Confesso que também nunca me fiz essa pergunta, Regina. E pra falar a verdade também não fiz quando era jovem, rs. Ia meio que ao sabor do vento, rs. Entendo que quando se é jovem e acho mais ainda na minha geração, se tem aquela ideia de viver o momento, mas saber planejar alguns caminhos teria sido bom. Vou ter que aprender a fazer isso agora.

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