Estranhamento

Um estranhamento

É um estranhamento tudo o que sinto. Aposentei e, naquele momento, era tudo o que queria fazer.  Com tempo livre, comecei a aproveitar. Viajei, sai com os amigos, assisti a todos os filmes que podia. Resgatei velhos desejos – o de escrever contos e o de desenhar – e me inscrevi numa oficina de literatura e num curso desenho.

Para mim, tinha aposentado no momento certo. Faltava um tempinho para chegar aos sessenta, aos setenta. Muito tempo, ainda, pela frente.

Doce Ilusão

Os anos correram mais depressa do que eu previa. Aí estava eu, com mais de sessenta e cinco anos. Olhei ao redor e estranhei tudo. As pessoas me tratavam diferente.  A imagem que vi refletida no espelho era outra. Não gostei do que vi. Mas, o dia derradeiro, foi quando uma pessoa no ônibus, sentada no banco para idosos, me cedeu o lugar e disse “- Por favor, a senhora não quer se sentar?” Aquele senhora soou no ouvido como um alarme.

Aí, eu percebi que estava envelhecendo. Era eu e não os outros. Já não tinha mais aquele comentário, que sempre ouvira, de que não aparentava a idade que tinha. Como os anos passaram e eu não percebi? Por que ninguém me falou nada sobre isso? Sobre como seria, como se preparar e, antes de tudo, como não se sentir desconfortável com o avançar da idade.

Melhor idade?

Baixou uma depressão. Preocupada, esbocei uma reação.  Comecei a ler, compulsivamente, sobre essa fase da vida. Mil recomendações de como cuidar do corpo, da mente, como redirecionara a vida. Lá fui eu. Fiz minha matrícula numa academia perto de casa. Marquei consulta com a nutricionista. Fiz inscrição num curso de desenho. Participei de oficinas de literatura, de criatividade, de cursos para exercitar o cérebro.

Tudo muito prazeroso… mas, a angústia, o medo, a insegurança, não foram embora. Continuava a sensação de inadequação. E que só piorou quando me dei conta de quantos rótulos se usam para definir essa fase da vida: terceira idade, nova idade, melhor idade. Onde está a melhor idade se perco a minha identidade?

Quem sou?

Não me reconheço… completamente naquilo que já fui.  Sou quem era, mas, ao mesmo tempo, não sou mais. Quem sou? Equação… difícil de se resolver!

Continuo fazendo a maior parte das coisas que fazia: moro sozinha, pago minhas contas, encontro amigos, viajo, me atualizo tecnologicamente. Tomo todos os cuidados, faço o máximo possível para que a vida siga normal. Mas, as mudanças, ainda que pequenas, aparecem. São perceptíveis.   O corpo já não responde da mesma maneira. A mente precisa ficar mais atenta.

Claro, que agora tudo é muito mais tranquilo. Por mais que gostasse da minha vida anterior, gozar de maior liberdade, fazer escolhas, antes impossíveis, como ter meus próprios horários, planejar o que vou fazer e quando fazer, oxigena a vida. É bom saber que eu administro meu relógio.

Queria, sim, uma vida menos estressada. Mas, o que é tão desejado, também assusta. A vida que eu tinha, desapareceu. Os horários de costume, as atividades diárias, as obrigações tão rigorosamente cumpridas, o chope da sexta-feira com os colegas de trabalho, tudo se foi. O ambiente profissional, as relações nele estabelecidas, o reconhecimento obtido com o trabalho realizado, já não fazem parte da minha vida.

Agora sou eu que tenho que preencher os dias, estabelecer novos horizontes, dar sentido a cada coisa que faço. Zerar tudo, reinventar a vida, não é tarefa fácil. Quer queiramos ou não, envelhecer nos leva a um novo começo.

Todo mundo quer respeito

Além do nosso olhar, descobrindo a velhice, tem o olhar do outro. Este fica logo perceptível, assim que envelhecemos. Não somos mais valorizados por aquilo que éramos, fazíamos, aparentávamos. Agora, somos invisíveis. A única coisa que merecemos é respeito. Ora, bolas! Todo mundo quer respeito. Mas, existe outros quereres. Quereres que eu, também, quero.

Por tudo isso, muitas vezes, me sinto um “ET”, alguém que não se enquadra em nenhum contexto. Se envelhecer é inevitável, não consigo entender porque o meu envelhecimento não pode ser encarado como uma etapa da vida, igual a tantas outras que vivi. Afinal, para chegar até aqui, tive que nascer, ser criança, adolescente; passar pela idade adulta. Não foi um caminhar sem percalços. Tive momentos felizes, sim; mas, também, dificuldades, crises existenciais.

E, como tal, aprendi a lidar com as situações e continuar vivendo. Quem disse que não posso fazer isso agora?


Sugestões para acompanhar o texto:

A palavra Envelhecimento pode vir carregada de conceitos negativos, ideias errôneas, que acabam por influenciar a nossa maneira de ver essa fase da vida. Os textos, abaixo, do Portal do Envelhecimento, fazem uma excelente análise a respeito. Qual é a sua concepção de velhice? Como percebe a sua velhice?

“Envelhecimento: idoso, velhice ou terceira idade”

“Envelhecer está carregado de coisa negativa”


Foto: Designed by Freepik

6 comments

  1. Me identifiquei tanto com seu espanto, Regina! E com a surpresa de que ninguém te ensina nada dessa fase da vida, aliás de nenhuma fase. E penso que o susto vem exatamente dessa solidão que a gente sente quando atravessa os ciclos, as fases, como se só nós passássemos por elas. Entender como normais, parte da vida parece que nos obriga a um silêncio e isolamento sem sentido, falar parece que desfaz um tipo de pacto velado de fazermos de conta que nada importante está acontecendo. Por isso é legal você desvelar o assunto, falar sobre envelhecer pq tb nos permite ver mudanças boas desse momento. Inseguranças e timidez que tínhamos na juventude foram superadas, excesso de preocupação com imagem, o que os outros vão pensar também e isso traz uma liberdade muito boa, como uma conquista mesmo. Tem ganhos em envelhecer tanto quanto perdas, como em tudo na vida. Também é uma surpresa pra mim as pessoas me darem seu lugar no ônibus, rs, ainda estranho, mas aproveito, rs, já fiquei de pé demais e pagando! Agora vou sentada e de graça, rsrs. A liberdade de ir e vir também tem sido uma coisa libertadora! Obrigada por abrir essa cortina falando do envelhecimento por esse viés tão pouco explorado. Normalmente os blogs ficam só nas dicas pra envelhecer com saúde (o que é ótimo, claro) ou incentivando a darmos “a virada” e fazermos tudo que não fizemos na juventude. Só se esquecem de que não somos mais jovens e nossos sonhos e desejos não ficaram parados no tempo esperando a hora deles. Hoje são outros, como nós. Teu espanto é uma luz!

    1. Você se identificou com o meu espanto. Eu, com sua resposta. Solidão, esta, talvez, seja a razão do susto ao verificarmos que a vida passou. E ao se querer dizer algo, somos confrontados com uma verdade inquestionável – a vida é feita de ciclos e só resta viver.
      Então a gente se cala. Eu, mesma, ao ouvir de outras pessoas, expressões tais como – “envelhecer é normal, pois se não fosse assim estaríamos mortos”, “isso faz parte da vida’…, e por aí vai, me calei. Acabei convencida de que a dificuldade era minha, por não aceitar o óbvio. O que fiz foi, justamente, “não quebrar” o pacto que se estabelece em torno desses falares, evitando mencionar medos e aflições.
      Mas, não se pode manter esse acordo por muito tempo, caso queiramos escapar da solidão. E, aí, você me mostra um caminho, muito diferente do meu. O meu foi falar. O seu, foi observar o que foi vivido. Percebeu que, em cada ciclo, teve perdas e ganhos. E que o que aprendeu lhe dava aval para viver seu envelhecimento; reconhecendo o que de melhor ele poderia lhe proporcionar. E para driblar o espanto, as limitações, adotou o humor como estratégia de vida. Esta – “de aceitar o assento no ônibus e ir de graça, pois já ficou de pé demais e pagando” – foi uma maneira bem divertida, que encontrou, de superar seu espanto.
      Ainda, não consegui aplicar essa sabedoria a minha vida. E continuo a pagar o ônibus. Mas um dia, chego lá. O importante é que, cada um com o seu olhar, possa escolher como quer viver essa fase da vida. E, de preferência, sem enfrentar restrições ou preconceitos.
      E que tudo que for escrito nos ajude a buscar respostas mais adequadas para um mundo, onde vamos viver mais e melhor, mas com desafios bem maiores do que os dos nossos pais e avós.

  2. É bom poder se expressar sobre esse assunto. Eu percebo que a questão sobre o envelhecimento hoje em dia ocorre mais pelo fato de se dar muito valor a juventude e a aparência. A preocupação com o envelhecer vem depois da aposentadoria, curtimos por um tempo e depois achamos que não temos mais nada para fazer e isso se agrava quando temos filhos e eles se vão. Nossa experiência e sabedoria não servem mais, sentimos medo do desamparo. Não sei se existe um jeito certo para envelhecermos, só sei que precisamos aceitar essa nova fase e viver bem com ela e não nos permitir sentirmos “velhos”, mesmo que alguém nos ceda seu lugar no ônibus. Há sempre o que fazer . Podemos não ter tanto vigor físico, mas temos muita energia para encontrarmos um propósito e realizarmos um sonho. Uma vez eu ouvi de alguém que o propósito da vida é viver, então o melhor é celebrar a vida todos os dias com alegria e gratidão, convivendo com pessoas e coisas que nos fazem bem e feliz , compartilhando, sendo útil e estando aberto para o novo.

    1. Verbalizar o que sentimos, nem sempre é fácil, principalmente quando se trata do nosso envelhecimento. Mas, quando conseguimos tal feito, penso que podemos decidir com mais clareza como desejamos viver e ser nessa fase da vida. Não é uma garantia de que sentimentos como medo e desamparo vão desaparecer. É, apenas, a certeza de que estaremos atento, para não sermos reféns de fórmulas de envelhecimento propagadas, como a que você cita em seu comentário, que leva a uma obsessiva busca pela beleza e pela juventude eterna. É como se nos dissessem – “Você pode, sim, envelhecer, mas a aparência, a vitalidade precisam ser as mesmas de sua juventude”.
      Vou além, retomando o que a Inês, nossa irmã, comentou sobre o assunto: “Será que estes blogs, sites que ditam receitas, regras de como envelhecer, pensam que ficamos congelados no tempo? Por acaso, não percebem que evoluímos? E que nossa aparência mudou? E que nossos sonhos e projetos são outros?”.
      Eu, em princípio, nada tenho contra informações sobre saúde, beleza, que contribuem para melhorar nossa saúde, a nossa autoestima. Isso é positivo. Mas, não podemos nos sentir engessados. Este século XXI, com todas as suas mudanças, conquistas, nos deu a possiblidade de viver mais e melhor. Aumentou o nosso leque de escolhas.
      Podemos decidir como queremos envelhecer, não precisamos ficar presos a uma única opção. Como você bem diz, não há um jeito certo de fazer as coisas. Aceitar a velhice como mais um ciclo da vida, com seus pontos positivos e negativos, concordo com você, é a decisão mais sensata. Porém, não é fácil.
      Mas, talvez a aceitação (que não quer dizer conformismo), nos leve a concentrar naquilo que é importante – viver. Viver da melhor maneira possível.

  3. Sabe, Regina, eu sinto esse medo E essa angústia, que ficam no peito caladas, quietinhas, como se dessa forma elas não sejam percebidas e talvez, quem sabe, desapareçam que por encanto. Me aposentei achando que agora iria fazer tudo o que eu queria, mas não aconteceu, desfiz um casamento, comprei um apartamento numa idade em que já queria tê-lo pago, minhas filhas ainda são dependentes, continuo trabalhando. Tenho sonhos, muitos…Gostaria de concretizar antes de deixar essa vida, mas ainda tenho responsabilidades com minhas filhas, não tenho ajuda do pai delas , já aceitei isso na minha vida. Eu tenho que dar conta, então não me permito envelhecer dessa forma como nossa sociedade coloca. Cuido da saúde E muito do corpo, pois ele é o nosso veículo neste mundo. Cuido da aparência , pois através dela as pessoas confiam no meu trabalho, não apenas uma aparência superficial, mas que tem vida, que tem energia. Eu gosto de me sentir com energia, essa energia vem do meu ser, aquele que quer ver o envelhecer como um tempo mais de vida. Eu continuo a Luísa de sempre, apenas mais vivida e desapegada.
    Tenho meus medos e crenças negativas que estão impregnadas no meu subconsciente, mas não aceito e falo para mim, não me pertencem, alguém as colocou aí. É vou em frente, me desafiando em novas coisas. Claro, que resisto muito no começo, choro, esperneio, porque é ótimo estar na zona de conforto. Mas, aos poucos vou indo em frente, claro que hoje evito ficar me cobrando, vou no meu tempo, com mais suavidade. Muitas vezes choro, falo que não quero mais seguir em frente,mas depois tudo passa e lá estou eu a querer aprender aquilo que eu não queria aprender. ….

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